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quinta-feira, 15 de julho de 2010

O CORPO-CONVOSCO.


Pintura de Silvia Migliari (detalhe).



Vida – como se em alta oceania navegássemos, eu convosco, tu conosco, ele contigo – e nós, como se saltássemos de alta plataforma. Já que a cidade é um vão, untemos um do outro o coração, reergamo-nos sobre a anarquia que a cidade abre. Eu conosco, tu convosco – e com todos: ele, o coração de tudo. Como se postados no topo de um alto edifício resolvêssemos enfim conhecer a aventura da queda. Untemos pois um do outro o torso – eu, tu – vós, que observais tudo alto, pai, facínora, náufrago.


Vida – como se do coração da cidade avistássemos finalmente o formato do mundo, a feição de seus mapas. Eu vou convosco. Tu vais conosco. Vamos todos, parceiros, em marcha duvidosa, vamos trôpegos.  Vê que o teu corpo é um objeto frágil? Vê que o irmão do teu corpo é o meu corpo e que da mesma fonte partilhamos? Pois untemos um do outro as costas com o óleo preto que a cidade espalha, respiremos com vigor a fumaça tóxica de seus automóveis, mergulhemos enfim (eu convosco e vós conosco) na água imunda de seus chafarizes.


Vida, na alegria. Pois se a cidade é o antigo labirinto do mito, rompamos o cordão, viajemos juntos ao redor da noite, mudemos de cor, troquemos de máscara, gastemos nossa juventude já escassa  em empreitadas, aceitemos as duras rajadas. Pois sois vós - ó pai desnaturado – o objeto de todo louvor. E é de ti que a vida  cresce, é do teu fosso que saem as putas, é o teu sexo que espalha o líquido viscoso. Pois trata de logo de untar com teu sêmen as dobras do corpo-convosco, vem conosco, agora, a cidade implora, que venha, que abra tua artéria-mestra e lambuze com teu sangue grosso as saliências da carne-conosco.


Vida – já não é um  corpo limitado em contornos, mas o corpo da cidade entorna um corpo-extenso; já não é tua essa cabeça, é cabeça da cidade, uma cabeça-conosco-interligada, como uma teia de cabeças pisca e emite um turbilhão de códigos. Já não és tu, teu corpo separou-se de ti, teus olhos saltaram e foram massacrados, teus braços geraram andaimes, tuas pernas pilares, teu ânus escapamentos, teus pés formaram bases onde a cidade assenta suas estruturas. Pois estás conosco, estás em nós, já não reconheces a própria face – pois a face que era tua tornou-se face-variada, tuas feições foram borradas, teus traços foram apagados. Vou, pois, contigo (e conosco vem a violência); vem pois, comigo (e conosco vai a alegria). Vem, que na cidade fundiram-se o meu e o teu corpo e  corpo de todos. E já não se sabe mais a qual corpo pertencemos, já que estamos fundidos e não vivemos senão um em busca do outro.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Os Trabalhos do Corpo.




Com os lados, abertos em pares,
Remaneja ele a nova aurora esperada
Com os dísticos – como quem espera a noite
Atrás das coisas – cabelos, oriente de mãos
E dedos fracionados: aonde foste?

Com teus abruptos laços, pés no barro,
Onde estivestes tu, parceiro, que a noite
Aperta o meu peito e gasta a minha alegria?

Com teus vários anagramas posto,
Conserva de mim a brisa fria –
O outono é nosso, companheiro, rasgado:
E aonde forem teus pés, teus ligamentos
Estarei eu, a postos, como estátua.

Com o fausto do teu corpo em mim alinhavado,
Te deitas, homem, sobre a noite arcaica.
E vigia, que a sombra do teu corpo é minha sombra.
E a réstia do teu cheiro é o meu cheiro guardado –
amor dos cálices lavrados, amor das grotas,
Amor dos montes em pedra modelados.

Não é a própria gana de estar vivo?
Não é essa a mesma vida?
Vem de ti, vem de nós, o sangue espesso que
Alimenta as partes e abastece a fornalha.
Vem de ti a paciência de percorrer em mim
As partes amputadas – vem de ti a faina:
A obra e os trabalhos.

A Maquinaria.



 


Esse corpo tão frágil que me veste
Onde o tempo as suas garras crava
Essa capa tão fina que me cobre
A que os homens chamam “pele”
Esse pulso ininterupto no peito
- ora lento, ora apressado –
Esses globos móveis e retráteis
Alocados em duas cavidades
- são chamados pelos homens “olhos”.
É um alento que toda essa vida anima
Ou é a própria vida que, animando-se,
Consome a si mesma como a flama
Acendendo e apagando seus fachos?


São as matrizes do corpo bem armadas
São estendidos os tendões em cruz
E calçadas as espáduas nos desvãos
E dispostos em dutos os nervos.

Essa maquinaria operante e quente,
Que música, que rumor, que sopro, que faísca?
Que motor, além dos céus, acende
A luz de uns olhos como os teus?

Quem, lançado na pesquisa arcaica,
Corpo adentro, perscruta, em vão,
Seu próprio maquinário
Dele recebe rumores, hieroglifos –
Que a angústia que habita o teu peito
E o retumbar que no teu ventre soa
Nada revelam e nada comunicam
Senão o murmúrio surdo
Daquilo que jaz em ti, secreto,
E que a ti mesmo soa indecifrável.

Já não decifro a mim mesmo e não conheço a casa
Onde o meu coração divide em espasmos o tempo.
Então, porque não junto os meus pés e espalmo
Com fervor na areia as minhas mãos cansadas
E deposito meu corpo fatigado sobre as águas?

terça-feira, 13 de abril de 2010

Para Rebentar.



Para rebentar - moventes os membros, moventes as faces. Se de um teu silêncio horrorizado emergem vozes. Se de dentro do teu fígado. Para voltar a trotear os pagos, changueiro, para voltar a percorrer as plagas e cortejar mananciais feitos de carne e rejuntados ossos. No perímetro de um arquipélago perfaz-se a lida: a Terra é uma convulsionada. A vida organiza-se segundo um ritmo. São cláusulas de um pacto. São sentenças.

Quem, o afogueado? Cediças, as calças, nas ladeiras onde a vida desliza - quem? Quem com guinchos de flamingo, seus tentáculos, suas nádegas. Quem com tripas, unhas, pregas, coração - planejava um antepasto - um atentado contra as diretrizes. A vida é uma falácia - e dentro a latência. Falência dos teus rudimentos. Quebranto, sacramento, prece. Quem, o alardeado, o bandônio, o andarilho, o procurado. Até o fundo das valas, nas grotas, nas veredas tortas - quem?

Trançado, urdido, vincado - terneiro amarrado por dentro, seguro por dentro, aguilhoado. Nas charqueadas, tombado sobre a madrugada, em jaula, em câmara vedada. Vergado sob o peso de estacas, remanejado em currais, dependurado sobre a estrutura de ferro. Titã, escalpelado, torcido por uma máquina. Pequena glândula dentro da cabeça.

Antes, as coisas abertas - um busto, um flanco, um vaso. Antes, reabertas as coisas, atrás de ti, atrás da vida, que é perto de onde as coisas, que é perto de ti, sobre as tuas costas. Raspagem dos pêlos de um polvo. Suor que escorre de ti em direção à vida. Antes, que na dança de ilhargas, rejuntadas as postas, se falou num tempo - tempo de coisas reatadas. Mixagem dos ombros de um potro. Argamassa, coragem, partição da vida - e vesículas de onde brota a estação - a invenção das coisas. Sobre mim mesmo, teus dentes cravados, raiz das coisas retraçadas - um duto, um aqueduto, um túnel.

domingo, 22 de novembro de 2009



Pubianos os sinos plangentes da noite mais preta
Pubianas as vozes do ungüento da terra
Pubianos os troncos sob o chão de folhas e raízes
Os pêlos da encosta, como em sonho tocá-los
Ou morder as hastes mal depiladas, os nichos,
As vertentes  - e pubianas a carne das costas
A porção mais alentada de matéria.

Um vozerio que não cessa, tropel de cascos
Pubiano o trecho da estrada quase retilínea
As bordas maculadas, crispados os membros,
Pubiana fonte raspada, talo das flores,
Estame das flores, fornalha.

Raça, coragem, flanco turbinado
E a remada alta combinada às pressas
No lance de escadas – que a noite,
Como arraia-mestra, devasta as partes
Mais macias, pubianas as urnas laqueadas,
A noite como alcaide do exercício,
Na faina interminável de romper-te,
Assalta a crosta pubiana do hemisfério,
A doce alaranjada cabeça descoberta
Que vacila sob a linha, a madrugada,
A lida de reter-te e  contornar-te sempre.

Imagem: Auguste Rodin - O beijo (detalhe).