quinta-feira, 15 de julho de 2010

O CORPO-CONVOSCO.


Pintura de Silvia Migliari (detalhe).



Vida – como se em alta oceania navegássemos, eu convosco, tu conosco, ele contigo – e nós, como se saltássemos de alta plataforma. Já que a cidade é um vão, untemos um do outro o coração, reergamo-nos sobre a anarquia que a cidade abre. Eu conosco, tu convosco – e com todos: ele, o coração de tudo. Como se postados no topo de um alto edifício resolvêssemos enfim conhecer a aventura da queda. Untemos pois um do outro o torso – eu, tu – vós, que observais tudo alto, pai, facínora, náufrago.


Vida – como se do coração da cidade avistássemos finalmente o formato do mundo, a feição de seus mapas. Eu vou convosco. Tu vais conosco. Vamos todos, parceiros, em marcha duvidosa, vamos trôpegos.  Vê que o teu corpo é um objeto frágil? Vê que o irmão do teu corpo é o meu corpo e que da mesma fonte partilhamos? Pois untemos um do outro as costas com o óleo preto que a cidade espalha, respiremos com vigor a fumaça tóxica de seus automóveis, mergulhemos enfim (eu convosco e vós conosco) na água imunda de seus chafarizes.


Vida, na alegria. Pois se a cidade é o antigo labirinto do mito, rompamos o cordão, viajemos juntos ao redor da noite, mudemos de cor, troquemos de máscara, gastemos nossa juventude já escassa  em empreitadas, aceitemos as duras rajadas. Pois sois vós - ó pai desnaturado – o objeto de todo louvor. E é de ti que a vida  cresce, é do teu fosso que saem as putas, é o teu sexo que espalha o líquido viscoso. Pois trata de logo de untar com teu sêmen as dobras do corpo-convosco, vem conosco, agora, a cidade implora, que venha, que abra tua artéria-mestra e lambuze com teu sangue grosso as saliências da carne-conosco.


Vida – já não é um  corpo limitado em contornos, mas o corpo da cidade entorna um corpo-extenso; já não é tua essa cabeça, é cabeça da cidade, uma cabeça-conosco-interligada, como uma teia de cabeças pisca e emite um turbilhão de códigos. Já não és tu, teu corpo separou-se de ti, teus olhos saltaram e foram massacrados, teus braços geraram andaimes, tuas pernas pilares, teu ânus escapamentos, teus pés formaram bases onde a cidade assenta suas estruturas. Pois estás conosco, estás em nós, já não reconheces a própria face – pois a face que era tua tornou-se face-variada, tuas feições foram borradas, teus traços foram apagados. Vou, pois, contigo (e conosco vem a violência); vem pois, comigo (e conosco vai a alegria). Vem, que na cidade fundiram-se o meu e o teu corpo e  corpo de todos. E já não se sabe mais a qual corpo pertencemos, já que estamos fundidos e não vivemos senão um em busca do outro.

terça-feira, 13 de julho de 2010

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Arte Como Problema.


Escrever como quem executa um gesto  – escrever algo tão simples que mal suporte a palavra. Penso numa meta: escrever algo tão nulo que mal suporte o peso de um tema. Realizo um exercício: escrever sem assunto algum, só pelo prazer de ir conectando uma palavra a outra. Imagino escrever algo imperceptível, como uma pessoa respira e mal percebe que respira. Sem esforço, sem dor, sem vontade alguma de estilo. Escrever sem pretender que o escrito seja lido ou admirado, aliás, escrever sem pretender nada. Produzir algo vazio, feito apenas de palavras, não de pensamentos. Palavras libertas de si mesmas, esquecidas da carga do significado. Mas veja, já se perde meu exercício. Começo a esboçar um tema. Vou tentar de novo, de outro jeito.

Mandala, vastidão, passagem. Reunião de sábios, templo, deus, garagem. Vida líquida, forragem dos pastos, mexilhão, costados de pedra acinzentada, manivelas de feltro. Som que das algas se desprende e vaza pelo mar de sargaços – avisto a ti, pequeno animal, no Triângulo das Bermudas.

Novamente, meu objetivo fracassa. Logo que começo a tentar, vão surgindo, sem que eu queira, minhas obsessões, meus fantasmas começam a falar. Um pensamento (mesmo que vago ou mal delineado) vai se formando atrás do texto, as palavras vão ganhando peso e valor. O tema se insinua, sorrateiro, o sentido se esgueira mesmo que a meta seja escapar dele. Pois o exercício visa ao absoluto nonsense. Mas percebo de forma muito nitida que as palavras repelem o não-sentido. A carga de sentido é tão forte, tão arcaica, que o sentido sabota a pretensa nulidade de si mesmo. Daí, tento concluir: a única possibilidade de experimentar a ausência de sentido é o silêncio. No caso, o  texto sairia assim:







Mas aí em cima não há texto. Não há nem mesmo um sinal de pontuação, porque caso houvesse, já haveria sentido. Como nos "quatro minutos e trinta e três segundos" de John Cage também não há música. Chega-se assim, a uma região limite, onde a arte já não é possível. Pois (eu divago) a arte é o território do sentido, por mais que dele tente dele escapar ou subvertê-lo, fragmentá-lo, minimizá-lo – o que certamente resulta em hermetismo. E para o hermético, não há público, a não ser os próprios artistas, em seu círculo. Pode-se perguntar então: “Mas para quê  fugir do sentido? Qual a razão dessa revolta, dessa rejeição do sentido? Será apenas um capricho, uma afetação vanguardista, um pendor aristocrático, uma vaidade excêntrica, enfim, algo fake, feito apenas para impressionar?” É o caso de muitos artistas. As mostras de arte contemporânea estão cheias de charlatães e de pseudo-arte, com as devidas exceções. A única vantagem disso tudo é que hoje já não se sabe mais o que significa exatamente a palavra “arte”. A arte tornou-se novamente um problema.

E problemas são o alimento do pensamento. Se todos estivessem de acordo sobre a arte, não haveria o que discutir. Mas se há desacordo, confusão, disputa, o pensamento cresce. Na minha experiência como escritor, aprendi que o não-fazer-concessões-ao-sentido é o mesmo que afastar-se do público; quando se tende ao não-sentido ou ao sentido múltiplo, vago, sugerido, não se pode esperar feedback algum – a não ser daqueles que, como artistas, de alguma forma, “entendem” o sentido oculto por trás da aparente vontade de nulidade significativa.

Pois há um sentido oculto ali. Se excluirmos charlatanice e vaidade, há todo um grande emaranhado de razões que justificam a rejeição do sentido ou a sua fragmentação, subversão, afastamento. A força-motriz aí presente, grosso modo, é a rebeldia contra a tirania do sentido herdado e enraizado pela tradição unida à paixão pelo experimento, imprevisto, acaso, ousadia, jogo.

terça-feira, 29 de junho de 2010

domingo, 27 de junho de 2010

Sobre o Amor. - Parte III.


Há uma espécie de amor que, contra a vontade de quem ama, recusa-se a morrer. Ela é rara, mas existe. Faz parte das coisas humanas, é irmão da morte e equivale a uma fonte inesgotável de dor. Outra espécie de amor, menos selvagem, pode ser aniquilada quando o amante constata a indiferença do amado. O amor do qual falo não aceita a morte. Ele persiste no coração do amante, como uma planta que mesmo sem luz e água continua a crescer e mantém seu viço apesar da falta de alimento. Aliás, a razão de seu viço é a própria falta de alimento. Assim, quanto menos alimento recebe, mais exuberante a planta medra, e tinge tudo com uma substância viscosa. Um amor dessa espécie é muito perigoso. Ele subjuga e exige do amante a renúncia a toda alegria, energia, saúde, impulso. A vida do amante torna-se vida-para-o-outro; tudo o que antes lhe interessava perde a cor; tudo o que ele antes prezava como valioso é esquecido. Pois o único valor, para o amante, é a presença. A presença do outro é para ele o valor absoluto, perto do qual todo o resto do mundo torna-se palidez e tédio. 

(Nota: O texto acima nasceu como diálogo ou resposta a um outro texto intitulado "Saída". Ele deve sua pequena existência a estas palavras de Ricardo Dalai, autor do blog "Reticências..." que pode ser acessado aqui ou no menu de blogs logo à direita.)

sábado, 26 de junho de 2010

Sobre o Amor. - Parte II.


Relendo hoje o que escrevi logo abaixo sobre o amor, temi que um possível leitor (se é que há algum) compreendesse a minha "crítica do amor" como fruto de algum ressentimento pessoal. Temi que  meu pensamento sobre o amor fosse tomado como amargor, renúncia, afastamento, vingança. Imaginei um leitor pensando consigo: "Ele não teve uma boa experiência no amor, por isso o deplora. Sua perspectiva não tem valor algum, por trás daquelas palavras há lamento e desejo de vingança". Confesso que, se assim pensasse, o tal leitor não estaria completamente enganado.

Por outro lado, há ali um desejo sincero de compreender o tema, sem deixar, na medida do possível, que o pensamento seja afetado pelo ressentimento. (Porém, considero: o que são nossos pensamentos senão frutos de nossa experiência? É possível exercer um pensar que não seja afetado, de alguma forma, pela vida, pelo corpo, pela experiência empírica? Mas essa é outra questão.)

Assim, buscando esclarecimento, mas me sentindo inábil para tanto, resolvi recorrer às palavras de um exímio pesquisador da alma humana. Ele é  célebre, muito lido, muito comentado, por vezes mal compreendido. E embora a sisudez da palavra "fiósofo" sirva normalmente para designá-lo, eu o considero mais próximo de designações como "artista", "criador", "espírito livre", ou algo que o valha. Depois de dar pauladas severas em várias espécies de amor, o autor refere-se ao "amor sexual". Leiamos:

(...) Mas é o amor sexual que se revela mais claramente como ânsia de propriedade: o amante quer a posse incondicional e única da pessoa desejada, quer poder incondicional tanto sobre sua alma quanto sobre seu corpo, quer ser amado unicamente, habitando e dominando a outra alma como algo supremo e absolutamente desejável. Se considerarmos que isso não é outra coisa senão excluir todo o mundo de um precioso bem, de uma felicidade e fruição; se considerarmos que o amante visa o empobrecimento e privação de todos os demais competidores e quer tornar-se o dragão de seu tesouro, sendo o mais implacável e egoísta dos "conquistadores" e exploradores; se considerarmos, por fim, que para o amante todo o resto do mundo parece indiferente , pálido, sem valor, e que ele se acha disposto a fazer qualquer sacrifício, a transtornar qualquer ordem, a relegar qualquer interesse: então nos admiraremos de que essa selvagem cobiça e injustiça do amor sexual tenha sido glorificada e divinizada a tal ponto, em todas as épocas, que desse amor foi extraída a noção de amor como oposto de egoísmo, quando é talvez a mais direta expressão do egoísmo. (...)

(NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 66).

Amor: egoísmo, cobiça, ânsia de poder, cegueira, sacrifício, perigo para a vida. Acho que não é preciso dizer mais nada.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sobre o Amor.


O amor é o peso do mundo.
Allen Ginsberg


Pensando sobre  “amor”, concluí que não passa de um palavra. Talvez seja, aliás, a mais estranha palavra já inventada. Ela serve para designar algo muito vasto e descontínuo, algo muito vago e misturado. A vida me ensinou que dor e amor são a mesma coisa. A mesma vida me ensinou que ódio e amor são irmãos, estão tão próximos um do outro que é impossível distingui-los. Certa vez, há muitos anos, vivi algo que imaginava ser “amor”. “Pobre filho enfermiço da vida”, como diz Thomas Mann. Aconteceu que esse algo transformou-se abruptamente em dor aguda. De dor aguda,  transformou-se angústia, e de angústia em pânico, e de pânico em quê? Loucura? Doença? Morte? Os ingênuos louvam o amor – como se soubessem do que se trata. Os iludidos. Os cegos. Não sabem, porque não viveram; entoam hinos ao amor porque nunca experimentaram na carne um ferro em brasa. Se tivessem vivido sem reservas o amor completo, incondicional, saberiam que seu objeto de culto equivale a um estar-fora de si mesmo, a um perder-se, a um estraçalhar-se. Não desconfiam os apologistas do amor que “amar” significa renunciar à liberdade, que gozo e amor são um do outro longínquos, que o amor é irmão da guerra e não da paz, que amor e alegria raramente se tocam – mas quando se tocam, se é que se tocam, algo de miraculoso deve acontecer. Eu não sei, porque nunca provei dessa mistura. Os ingênuos me replicarão: “Não, o amor salva, o amor enaltece, o amor reforça a alma”. Eu até os entendo, porque esse discurso está fortemente enraizado na tradição. Mas eu treplico: “O amor é perda, queda, fragmentação, desordem, confusão.” Gosto das palavras “alegria”, “amizade”, “coragem”. Mas não me venham falar de amor, como se soubessem do que se trata. Disso, só sabe quem nele mergulhou e emergiu transtornado, doente de si mesmo, marcado com uma ferida incurável. E esses, não falam: reservam para o amor um silêncio, talvez mesmo um rancor. Para quem fala de amor como se falasse de alegria e saúde, eu reservo o meu desprezo. Pois falam iludidos, e são estridentes, e escrevem hinos tediosos e defendem a eficácia do amor contra as dores da alma. Mas o que sabemos sobre “alma”? E o que sabemos sobre “dor”? São, como o “amor”, apenas palavras. E a linguagem é um instrumento rude, incapaz de penetrar em reinos tão emaranhados. 

O Abraço Humano: teatro + literatura.

 

No video acima, os atores representam o seguinte trecho do conto "Aqueles dois", de Caio Fernando Abreu:

(...) Quando Saul estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mão e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro: o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colônia de barba, talco. Durou muito tempo. A mão de Saul tocava a barba de Raul, que passava os dedos pelos caracóis miúdos do cabelo do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Saul levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender.
Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde. (...)

TEXTO DE CAIO FERNANDO ABREU.
TRECHO DO CONTO "AQUELES DOIS", QUE CONSTA DO VOLUME MORANGOS MOFADOS, PUBLICADO EM 1982 PELA EDITORA BRASILIENSE E REEDITADO EM 1995 PELA COMPANHIA DAS LETRAS. O CONTO INTEGRAL PODE SER LIDO AQUI. 

MONTAGEM ENCENADA PELA COMPANHIA DE TEATRO LUNA LUNERA DE BELO HORIZONTE - MG E APRESENTADA EM JUNHO DE 2010 NO FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO DE LONDRINA (FILO).

VIDEO: YGOR RADUY (LONDRINA).

quarta-feira, 23 de junho de 2010

SESSÃO_CEMITÉRIO_01.



Hoje, no fim da tarde, fui fazer fotos no cemitério. Sempre gostei de fazer isso. Uma vez, com essa intenção, pulei o muro do cemitério à noite com um amigo. E hoje, cansado de ficar sentado no computador, resolvi ir ao cemitério fazer fotos. O cemitério é um dos lugares mais atraentes que existe para quem curte fotografar. A abundância de linhas, cores, formas, perspectivas, texturas deixa qualquer olho meio desorientado. Flores, azulejos, manchas, estátuas, lixo, vidros, grades – o olhar se perde no meio de tantos assuntos. Mas as fotos não saíram como eu esperava. Com exceção de algumas poucas, ficaram quadradas, convencionais, cheias de clichês. Pode ser que a exigência implícita de uma espécie de postura respeitosa que o cemitério pede tenha bloqueado uma virtual ousadia da imagem. Lugar de respeito, imagens de respeito, ou seja: imagens ruins, pré-formatadas, sem vigor, sem criatividade. Será que alguma parte de mim se sentiu oprimida por aquilo que o cemitério representa? Nesse caso, teria a seriedade da morte recalcado a dose de alegria e ousadia necessárias a qualquer ato criativo? Não sei a resposta. Mas não vou desistir. Por isso, essa postagem se chama “Sessão Cemitério 1”, justamente porque vou tentar de novo, numa segunda sessão, fazer alguma foto boa no cemitério.

***

Quando voltei pra casa, mostrei as fotos a um amigo. Ele reagiu: “Que coisa macabra!” Eu respondi: “Não acho.” Por que fotos de cemitério têm que ser macabras? Claro, eu sei,  o ser humano tem horror à morte, e qualquer coisa que remeta a ela será “macabra”. Mas, pensando por outra perspectiva, o cemitério é um lugar quase engraçado com suas estatuetas bizarras, interiores ultra-cafonas de mausoléus, flores de plástico, epitáfios absurdos, velas coloridas, grades em formato de anjinho. Alguns diriam: “kitsch”. Eu não digo, porque não sei direito o que é “kitsch”. Por essas coisas, posso até achar o cemitério triste, pesaroso, melancólico, ou coisa que o valha, mas não “macabro”. Enfim, as fotos estão aí, para quem quiser passar o olho.














































































NOITE, CIDADE, MORTE, ALEGRIA: video+leitura.





Cidade, mesas de formato angular, tabelas-mestras, libretos onde se arrisca a vida, fugas ao redor do globo – estendo a minha mão a ti, escapadas ao sul da cidade-majestade. Cidade, os abismos de angústia. Forração, amor, vou a ti, esquema fluorescente de luzes, vou a ti, audaz. Oh majestade tóxica do asfalto, oh calçadas por onde caminhaste, oh lufadas do vento de junho! Sabre, torvelinho, prece – a cidade responde em ideogramas, garatujas, rabiscos. Fósforo, tinta, janelas rolantes, hortaliças. Os abismos onde a majestade-dor-cidade reina, seus vastos territórios. Cavalo de sódio: vou a ti, os olhos cheios de uma substância negra. Mas curvilíneo, vens a mim – e soam os sinos inaudíveis, uma rosa arroxeada no teu peito floresce. Vazantes, barro, fuligem das coisas, armários há muito soterrados – na cidade, teu corpo imantado passeia, teu rosto rígido, tuas mãos arcaicas, teus punhais. A cidade, matrona dos flancos, recita uma prece – filhos, amantes, padroeiro, luxo, umbrais, paixão, esquecimento e morte.

***

E na morte, fervilham os cemitérios, a cidade abriga um turbilhão de vermes, os corpos carcomidos por baixo, o sexo desmantelado, os olhos ocos, os seios reduzidos a uma substância preta. Como gastar-se, foder-se, aniquilar-se. Pelas sombras, nos campos santos, a cidade pratica os exercícios da putrefação. E as galerias, a febre, o aluvião de túneis sobrepostos, os jazigos onde repousam, os trastes. Rainha coroada às pressas, vou a ti, embora nos carcoma o tempo, vou a ti, embora nos espere a tumba, vou a ti, a cidade aspira pelo instante, a terra que nos devora aspira, vou a ti, perplexo, o coração cheio de uma substância pegajosa – na cidade que conta os teus dias, os meus dias, que há de te transportar de novo à terra, que há de me transportar de novo ao pó. Na cidade, consumidos, nadificados – nela estamos  fodidos, finitos. Contudo, respiramos. E expelimos sêmen e ruídos; quando jungidos, expelimos fluidos, alegria, festa. Quando colados um ao outro, encavalados um no outro, produzimos vida.



quarta-feira, 16 de junho de 2010

terça-feira, 15 de junho de 2010

Entardecer com Cores: Video+Texto.



Acontece de quando em quando, em fins de tarde, que o céu da cidade fique rajado de cores. Eu estava em casa, e cortava em rodelas uma lingüiça calabresa enquanto ouvia os Concertos de Brandenburgo. Ao olhar para a janela, me chamou a atenção a súcia de paletas reunidas, a delicada desordem e o arrojo de tantas cores misturadas. Era estranhamente moderno, espantoso, agressivo.  Era aquele embarafustamento, aquela profusão. No fim, aquele exagero, aquele esbanjamento de beleza sem finalidade que a natureza às vezes teima em fabricar lá com seus meios. É impróprio tomar o céu do entardecer por uma “obra”. Obras são coisas humanas. Mas é inevitável (e divertido, enfim) pensar naquele turbilhão como uma “obra” anônima, bombástica, feita para todos e para ninguém, incrivelmente elaborada em seu mais precioso detalhe e no entanto perfeitamente livre, desarticulada. Não pude deixar de observar ainda que a “obra” era mutante e cada cinco minutos revertia em outra. “Como tudo é grande e portentoso e belo!” – algo em mim dizia. Outro algo em mim, mais sóbrio, alertava: “Não se deixe enganar, foi você mesmo, humano, quem criou a beleza. Essa obra é sua.”  As duas partes não se entenderam lá muito bem. Uma delas dizia: “Como é possível negar que aqui existe algo que pode ser chamado de “belo em si”?” A outra retrucava: “ Mas como pode ser você ingênua e ao mesmo tempo arrogante a ponto de crer que a natureza se importa com seus juízos estéticos!” A noite derramou-se, enfim. E a grande obra sem autor – ou de autor desconhecido – foi encoberta pelas sombras. Nada ficou decidido entre as partes. Mas a uniformidade  que a noite estendeu sobre o que antes era variado e confuso foi capaz de acalmar os ânimos e fazer esquecer um pouco que o mundo é essa coisa colorida e móvel, misturada e doida, exuberante e cruel.


segunda-feira, 14 de junho de 2010

Um Lampião: Vídeo-Leitura.

 


Como um lampião no aberto campo
ilumina à sua volta a escuridão
e sobre a noite funda lança sua força,
limitada, é certo, mas potente -
assim persiste força humana.

Como aquele rude lampião enfrenta o escuro
munido apenas de sua única chama,
assim é a luz humana: perece enquanto brilha,
mas enquanto brilha alimenta a vida
sendo esta mesma vida o que lhe atiça a flama.

Solidão dessa luz encerrada na treva
teu flamejar é o meu próprio coração aceso
e a tua altivez é a minha coragem,
subitamente erguida.

Ah camparias, hinos, amplidões!
O combustível dessa chama é a minha fome
e o comburente sou eu mesmo –
um flanco em carne viva lacerado
um pomo vivo consumido às pressas.

Que o fogo encendido em ti é o meu fogo
e o fogo de tudo: nisso somos um,
nós e o todo, que arde conosco
enquanto eu ardo convosco e ardemos todos,
parceiros de incêndio.

Ah céus da madrugada, ah voragem,
devoração veloz dos corpos estendidos,
maturação da urgência dos frutos.

Ah prontidão imaculada das coisas
efêmero estar-aceso das coisas
seu ofuscante reluzir e seu relampejar.

Tal qual o lampião aceso aceita o vento
e a cada rajada a sua labareda cresce -
assim estamos frente ao refluir do tempo
mais viçosos a cada investida
mais altivos a cada chibatada
a cada tentativa mais brilhantes.

Pois se é o fogo o princípio de tudo
como na trágica Grécia predisse o Obscuro;
pois se em tudo age a mesma e contínua fome
e pela mesma fera tudo é consumido,
lembremos nós de arder enquanto o vento ruge
e de espalhar sobre o negrume nossa luz –
que essa luz finda, o querosene acaba
e à noite arcaica sobrepõe-se o dia glorioso
e sempre novo.

Mas resiste, petulante e radiosa vida
erguidos os seus mastros, suas velas enfunadas,
sem que os desmandos do tempo a desgovernem –
tal qual o lampião resiste, à beira da ramada
e fita com augusta audácia a madrugada.

Madrugada que só lhe devolve o entreabrir de espaços:
o navegar da lua sob a nuvem,
a coronilha do campo macerada,
o relincho agudo dos crioulos
e a algazarra das vozes misturadas dos pássaros.

sábado, 12 de junho de 2010

Ao Redor do Templo.







A cidade é um templo fincado sobre o chão. Sob o chão da cidade ergue-se a obra humana e divina. Na cidade, as vias são sacras, a calçada onde os pedestres correm, o asfalto da Avenida Faria Lima em São Paulo é sagrado. Na praça da Sé, ergue-se o grande aracnídeo. Em Londrina, a festa é sagrada, o dia todo é consagrado ao céu. Em São Paulo, quando anoitece, os passageiros do ônibus adormecem, as bocas sagradas abertas recebem com fervor a brisa tóxica.

***

Ao redor do templo, pessoas estão reunidas. A cidade é um coração de espinhos. A Catedral é uma estrutura pontiaguda. “Cristo está presente” – dizem os passantes. Na procissão, o sacerdote exclama: “Que o coração de Jesus proteja a tua vida!” Ouve-se em toda parte um burburinho. Todos sabem-se profanos. Mas a tarde cai, do coração de Jesus escorre um sangue doce, todos querem beber. Uma mulher diz à outra: “Deus me curou da hérnia”. A outra admira-se com o milagre.

***

O Cristo está em todos, seu corpo é consumido na ceia. Mas as luzes da cidade dizem: “O Cristo deixou a cidade, foi para o deserto”. O ônibus segue pela Faria Lima. Aparece o longo muro de um cemitério. Um passageiro sonolento diz: “Que descansem em paz”. Mas os mortos dizem: “Descansamos no solo sagrado da cidade. Nosso corpo também é consumido”. Um homem descasca um ovo cozido. Na missa, as fiéis sabem de cor os trechos bonitos do Evangelho. “O Senhor é minha luz e minha salvação. A quem temerei?”.

***

Ao redor do templo, na cidade de Londrina, o clima é festivo. Duas mulheres cegas conversam. Uma mulher comprou um pastel. Outra dá de presente à amiga um escapulário com a imagem do padroeiro da cidade, que não é nenhum santo, mas o próprio Sagrado Coração de Jesus. A amiga diz: “Obrigado, irmã”. Segundo elas, a alma é eterna e todos serão julgados no dia do Juízo. Quem for pecador, sofrerá eternamente tormentos lancinantes, inclusive os homossexuais.

***

Na escadaria, as freiras estão reunidas, em atitude respeitosa. O cheiro de espetinho chega até mesmo ao interior da Catedral. Consome-se carne, o corpo sagrado é devorado, o Coração Sagrado é repartido em postas. Uma criança pergunta à avó: “Vó, eu vou pro céu?” Jesus está olhando. A cidade pulsa inteira, como um coração. A procissão segue pela rua, todos querem mordiscar o Coração, se for possível arrancar-lhe um naco. Sob os olhos abertos do Cristo, a grande coroa de espinhos. A cidade foi purificada, a tarde desmaiada é um leito. Cansado da festa, o povo cristão vai se dispersando. Deus está com todos. No centro do templo, Jesus estraçalhado murmura: “Que Deus esteja convosco”. O coro responde: “Ele está no meio de nós”.



quinta-feira, 10 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

As Enjauladas.






ACESSE AQUI O SITE DO PROJETO MULTIGRAPHIAS
ACESSE AQUI A COMUNIDADE DO PROJETO NO ORKUT

Wasser und Licht.


sexta-feira, 4 de junho de 2010

Novo Experimento Sonoro,





Texto: Ygor Raduy
Leitura: Ygor Raduy e Gabriela Canale
Revisão textual: Ísis Fernandes


 



terça-feira, 1 de junho de 2010

Um poema de Federico Garcia Lorca II.



DO
AMOR IMPREVISTO
 
Ninguém compreendia o perfume
da magnólia escura do teu ventre.
Ninguém sabia que matizavas
um colibri de amor entre teus dentes.

Mil corcéis persas sobre a tua fronte,
praça ao luar, dormiam sono leve,
enquanto eu enlaçava quatro noites
tua cintura ardente, oposta à neve.

E teu olhar, entre jasmins e gesso,
era um pálido ramo de sementes.
Eu busquei, para dar-te, por meu peito
as letras de marfim que dizem sempre

Sempre, sempre: jardim de minha angústia,
teu corpo fugitivo para sempre,
teu sangue em minha boca, tua boca
já sem luz para minha morte à frente.


GARCÍA LORCA, Federico. Sonetos do amor obscuro e Divã do Tamarit. Tradução de Afonso Félix de Sousa. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p. 49.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Voices.


  VOICES II
  
 Uma experiência sonora.





Um poema de Federico Garcia Lorca.



O AMOR DORME NO PEITO DO POETA

Tu nunca entenderás quanto te quero
porque vives em mim, adormecido.
Por vozes de aço agudo perseguido,
dentro de mim, em pranto, eu te encarcero.

Norma que agita igual carne e luzeiro
traspassa já meu peito dolorido
E as túbidas palavras têm mordido
as asas de teu ânimo severo.

Nos jardins gente aguarda entre boninas
teu corpo e minha angústia, a toda brida
em cavalos de luz e verdes crinas.

Continua a dormir, tu, minha vida.
Ouve meu sangue roto em notas finas!
Olha que nos espreitam sem medida!

GARCÍA LORCA, Federico. Sonetos do amor obscuro e Divã do Tamarit. Tradução de Afonso Félix de Sousa. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p. 41.

sábado, 8 de maio de 2010

Sobre a Morte.


Eu penso sobre a morte. Sem motivo algum, imagino que seja suave. Talvez seja macia como um acalanto é macio na infância. Talvez seja  um envolver-se, um devolver-se, um deixar-se. Talvez morrer seja sedoso, como um imenso leito onde se repousa.  Talvez seja tentadora, a morte, como um mergulhar, um abandonar-se, um despir-se.  Para um corpo que vive, não há nada mais obsceno que a morte.  Mas já que sou humano, penso sobre ela. Será  a morte como um corte abrupto? Um baque? Um repentino desligar-se? Imagino a morte aveludada – talvez porque a vida seja tão áspera. A vida, aprendi, é dor. É o budismo que o diz. É a minha carne e o meu coração que o confirmam. Dor e Alegria, simultâneas. Mas a morte - talvez a morte seja a ausência, talvez o silêncio mais puro. Talvez seja o nada, talvez nela nos percamos de nós, talvez nos desliguemos – talvez seja um infinito esquecimento, um cessar, um interromper. A morte, eu imagino, é generosa, pois acolhe todo aquele que nela penetra. Quem está nela, já não sorri, já não goza, já não erra, já não avança, já não ama, já não sangra, já não arde. Meu único desejo é que na morte se possa ouvir Música. Não consigo suportar a idéia de um silêncio tão severo. Mas sei que a Música pertence à Vida. Quando a morte vem, a Música cessa. E há uma outra questão que me intriga: quando a morte vem, para onde vai o amor? É tão doloroso pensar que o amor também cessa quando a morte vem. Justo o amor, pelo qual juramos eterna sujeição, pelo qual derramamos sangue, suor, saliva, lágrima – é insuportável considerar que ele seja aniquilado pela câmara da morte, como um inseto.  Justo o amor, essa tina asquerosa e tóxica, dentro da qual chafurdamos. O amor, parente tão próximo do ódio. Eu pressinto que a morte não poupa nada, nem mesmo o amor, embora me doa esse pressentimento na alma como uma agulha dói quando enfiada na pele sem aviso. 

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A Cidade e os Frutos.



Habitam a cidade.
São carne e dor,
Estão vivos, são macios,
São corpos, são dóceis,
Mas perecíveis.

A cidade é o lugar onde habitam.
O circo onde enjaulados conduzem o espetáculo.
A cena onde exaustos representam alguma
Obscura peça.

E não há diretor que os guie;
Não há roteiro que os oriente;
E não há público algum que os aplauda.
Nada ali os acalenta:
Estão sós, embora sejam muitos.
E são frágeis: quando pulam de edifícios,
Ouve-se na calçada um baque surdo, severo.

Habitam a cidade.
São carne, ossos, coração e sangue.
Estão vivos, mas não por muito tempo.
Logo que morrem, são transportados
Ao lugar propício onde cada corpo
É minuciosamente devorado, em silêncio.

Mas por enquanto vivem, como pássaros vivem,
Esquecidos da morte, e sorriem, e tentam amar
E grudam seus corpos um no outro.
E quando é noite se enlaçam
E o suor de um mistura-se ao suor do outro.

É uma alegria precária que os invade então,
Quando tentam um do outro extrair o sumo,
E o sexo de um habita o sexo do outro,
E as línguas labutam, úmidas,
E o sêmen jorra em rajadas.

Mas são tão frágeis – e vivem apenas
Um minúsculo instante, dentro da cidade,
E respiram da cidade os gases,
E transitam altivos pelas avenidas,
E bebem café nos botecos
E sentam-se nos bancos quando vão fumar.

A cidade é cúmplice de tudo –
É nela que tais estruturas se armam:
A cidade é a cena, a varanda onde
As coisas se reúnem, o terreno onde
As coisas se chocam, a abertura
Por onde as coisas respiram.
É ela que arma um sobre o outro os cubículos.
É nela que os líquidos fluem,
Que os caixões são depositados,
Que os corpos continuamente nascem e padecem.

Pois nos bares florescem as putas
Pois nos becos repousam os embriagados
Pois nas prisões um homem fode um outro homem
Pois nos hospitais, nas fábricas, nos viadutos,
Nas casas de chá, nos salões de beleza:
A cidade é cúmplice, e são inumeráveis
As belezas que nela transcorrem
Assim como são inumeráveis os horrores
Que ela abriga em seus desvãos.

Na escuridão dos galpões
Nas catedrais de penumbra,
Na paz dos cemitérios,
No turbilhão das calçadas,
No calor dos quartos de concubinato,
Nos andaimes erguidos de aço
Nas câmaras que a cidade guarda trancadas
Onde, por fim,  amadurece o fruto híbrido,
O fruto bizarro  e doce que a cidade expele:
O fruto tóxico de seu infinito exercício.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Os Trabalhos do Corpo.




Com os lados, abertos em pares,
Remaneja ele a nova aurora esperada
Com os dísticos – como quem espera a noite
Atrás das coisas – cabelos, oriente de mãos
E dedos fracionados: aonde foste?

Com teus abruptos laços, pés no barro,
Onde estivestes tu, parceiro, que a noite
Aperta o meu peito e gasta a minha alegria?

Com teus vários anagramas posto,
Conserva de mim a brisa fria –
O outono é nosso, companheiro, rasgado:
E aonde forem teus pés, teus ligamentos
Estarei eu, a postos, como estátua.

Com o fausto do teu corpo em mim alinhavado,
Te deitas, homem, sobre a noite arcaica.
E vigia, que a sombra do teu corpo é minha sombra.
E a réstia do teu cheiro é o meu cheiro guardado –
amor dos cálices lavrados, amor das grotas,
Amor dos montes em pedra modelados.

Não é a própria gana de estar vivo?
Não é essa a mesma vida?
Vem de ti, vem de nós, o sangue espesso que
Alimenta as partes e abastece a fornalha.
Vem de ti a paciência de percorrer em mim
As partes amputadas – vem de ti a faina:
A obra e os trabalhos.

A Maquinaria.



 


Esse corpo tão frágil que me veste
Onde o tempo as suas garras crava
Essa capa tão fina que me cobre
A que os homens chamam “pele”
Esse pulso ininterupto no peito
- ora lento, ora apressado –
Esses globos móveis e retráteis
Alocados em duas cavidades
- são chamados pelos homens “olhos”.
É um alento que toda essa vida anima
Ou é a própria vida que, animando-se,
Consome a si mesma como a flama
Acendendo e apagando seus fachos?


São as matrizes do corpo bem armadas
São estendidos os tendões em cruz
E calçadas as espáduas nos desvãos
E dispostos em dutos os nervos.

Essa maquinaria operante e quente,
Que música, que rumor, que sopro, que faísca?
Que motor, além dos céus, acende
A luz de uns olhos como os teus?

Quem, lançado na pesquisa arcaica,
Corpo adentro, perscruta, em vão,
Seu próprio maquinário
Dele recebe rumores, hieroglifos –
Que a angústia que habita o teu peito
E o retumbar que no teu ventre soa
Nada revelam e nada comunicam
Senão o murmúrio surdo
Daquilo que jaz em ti, secreto,
E que a ti mesmo soa indecifrável.

Já não decifro a mim mesmo e não conheço a casa
Onde o meu coração divide em espasmos o tempo.
Então, porque não junto os meus pés e espalmo
Com fervor na areia as minhas mãos cansadas
E deposito meu corpo fatigado sobre as águas?

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Rio Caudaloso.


Há um rio tão caudaloso
que desce por uma antiga rua
e no seu curso leva os moços
e o sono dos moços misturado à espuma;
e no seu curso leva a renda
e a cristaleira, herança da família
e leva os broches e os camafeus.

Há um rio de águas revoltas
que por uma antiga rua da colônia desce
e no seu curso leva as pétalas
e o arredondado dos seios das moças
e o almiscarado do sonho das moças
misturado à espuma e misturado às pétalas.

Nesse rio de águas turvas, pegajosas
vão os silvos e os murmúrios
e o suor das noites e a ternura
e as palavras pronunciadas com cuidado
e mesmo aquelas não pronunciadas
vão todas emboladas nesse rio.

E mesmo as vestes e os andrajos
e os véus mais finos vão por sobre a água
e os lençóis ainda quentes vão boiando
como vão os travesseiros e os colchões,
rodopiando no leito desse rio
vão as anáguas de seda e os casacos
e as meias e as roupas de baixo
vão todos em fila e sobrepostos
como vão também as primaveras
e a luz das primaveras vai cristalizada.

Ainda vão no fundo lamacento desse rio
as culpas sem expiação e os lamentos
assim como os juramentos desfeitos
assim como os duelos de sangue
assim como os pactos travados
e os abraços apertados vão
e mesmo os apertos de mão
e as bofetadas vão,
e vai a fúria encavalada no leito desse rio,
e as juras de morte vão
e as juras de amor eterno vão jungidas
já destituídas da certeza que então as inflamava
vão pálidas e como que desistidas de si
e vão misturadas à confusão de galhos e troncos
e corpos flutuantes de animais.



Que nesse rio vão viajando a nudez e a volúpia.
Que nesse rio vai desfilando a audácia.
Que nesse rio – no turbilhão de suas águas
vai o medo e, sobrenadando, a coragem.

Há um rio de águas turbulentas
que por uma pitoresca rua da colônia desce.
É uma ladeira e a água vai depressa,
vai levando na jornada toda a vida
e vão as bicicletas e as torneiras
e os fogões e os ferros de passar
e as pias e as privadas arrancadas vão,
assim como vão as máquinas de costura
e as escarradeiras e os armários,
e as caixinhas de supresa
e os talheres e até mesmo a mesa vai
com os pratos, gurdanapos e as sopeiras
e até mesmo os convidados vão
e os donos da casa e as mucamas
e mesmo o cão de estimação da casa,
já caduco e aleijado vai,
sem que se possa, ainda uma vez,
recuperar aquela tarde na varanda
quando se ouvia ainda a alegria de seus latidos
esparramados no vento.

(Porque mesmo aquela tarde vai
e com ela vão a ambrosia e a louça
e a toalha rendada que compunha a mesa
e os murmúrios das moças reunidas
e o voejar dos leques no mormaço,
toda a ossatura oca daquela tarde
vai descomposta e torta
e seu perfume vai mesclado
ao perfume de outras tardes mais antigas.)


E vão a mãe, o pai, os filhos,
a avó, a bisavó e os ancestrais,
vão as irmãs e as primas
e os irmãos e os capatazes
vão todos, rodopiam, já não nadam,
simplesmente deixam-se levar,
sujeitam-se aos caprichos da voragem,
vão perdidos, com folhas no cabelo,
alguns nus, outros em farrapos,
mas vão acesos, de olhos abertos,
embora já mais nada enxerguem,
apenas pressentem que viajam.

E vão grinaldas, luvas, cachecóis
e vão as saias rodadas dançando
ao sabor da correnteza espessa
e vão as calças, as ceroulas
e as bombachas vão infladas
com suas guaiacas ainda transpassadas
e os macacões de brim vão encharcados,
 e as contas e os colares também vão.

E vai setembro com seus desvarios
e agosto vai com seus augúrios
e as promessas de janeiro vão
e vai maio com suas claridades
seus recantos de luz entretecidos na sombra
e mesmo as manhãs de maio gloriosas vão
mesmo aquelas, mais radiantes, mais claras,
vão todas, sem distinção, rodando n´água,
desperdiçando seu brilho.

Esse rio tão caudaloso,
que rola por essa alameda
tão antiga.

Rolam corações de rocha cristalina
e corações de rocha calcária
e rolam corações inteiros,
ainda em sístole e diástole
e mesmo corações despedaçados rolam,
mas esse afundam porque fazem água
e depois encalham no barro.

E como vão ainda verdejantes os muros de hera
e as buganvílias, como vão viçosas,
e as trepadeiras e as cercas-vivas,
como vão ainda floridas, ainda perfumadas!

E os salões de festa e os pátios,
os ginásios onde florescia a vida,
e as salas de laboratório, os tubos de ensaio,
vão os vidros com cascavéis conservadas
e as pombas e as gaivotas empalhadas,
e os cadernos de desenho e os compassos,
vão os balcões e as escadarias da infância,
e até mesmo o cheiro dos recreios da infância,
e o gosto estranho das jaboticabas
e a algazarra das horas perdidas da infância,
vai tudo nesse curso, nada se salva,
nem mesmo aquela vida mais profunda
que no cerne da alma nova fermentava,
efervescia, irradiava,
e conspirava por mais vida.


E a primeira inocência
e o primeiro espasmo
e o primeiro jorro
e o primeiro estertor
vão todos,
vão transfigurados.

Vão todos confusos, enlheados,
os olhos abertos ou entrecerrados
vão descendo pela rua da colônia
os touros e as vacas de leite e os bezerros
e as patas e as galinhas e até mesmo
as galinhas d´angola vão, sarapintadas,
as capivaras vão, muito fagueiras,
e acredite – uma grande onça parda
dessas que rondavam na madrugada
nossa casa.

Vão as mãos enregeladas, costas nuas,
os flancos guarnecidos, as espáduas,
vão as expressões de susto e as gargalhadas,
a linha que divide em dois o peito
e a linha que atravessa as costas,
vão as rótulas e os calcanhares,
já separados das pernas
e o formato amendoado dos olhos
e os próprios olhos vão, opacos,
as retinas danificadas pela água.

E vai o verão e o calor das noites de verão
e a brisa que fazia tremular os plátanos,
e o sonho que na noite de verão se sonhava
vai ramificado e dividido em placas
como em fotogramas plasmado
e a felicidade que nessas noites brotava
e o giro das estrelas sobre o campo
e cheiro da resina pegajosa do lenho
misturado ao cheiro do barro e da erva macerada.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Para Rebentar.



Para rebentar - moventes os membros, moventes as faces. Se de um teu silêncio horrorizado emergem vozes. Se de dentro do teu fígado. Para voltar a trotear os pagos, changueiro, para voltar a percorrer as plagas e cortejar mananciais feitos de carne e rejuntados ossos. No perímetro de um arquipélago perfaz-se a lida: a Terra é uma convulsionada. A vida organiza-se segundo um ritmo. São cláusulas de um pacto. São sentenças.

Quem, o afogueado? Cediças, as calças, nas ladeiras onde a vida desliza - quem? Quem com guinchos de flamingo, seus tentáculos, suas nádegas. Quem com tripas, unhas, pregas, coração - planejava um antepasto - um atentado contra as diretrizes. A vida é uma falácia - e dentro a latência. Falência dos teus rudimentos. Quebranto, sacramento, prece. Quem, o alardeado, o bandônio, o andarilho, o procurado. Até o fundo das valas, nas grotas, nas veredas tortas - quem?

Trançado, urdido, vincado - terneiro amarrado por dentro, seguro por dentro, aguilhoado. Nas charqueadas, tombado sobre a madrugada, em jaula, em câmara vedada. Vergado sob o peso de estacas, remanejado em currais, dependurado sobre a estrutura de ferro. Titã, escalpelado, torcido por uma máquina. Pequena glândula dentro da cabeça.

Antes, as coisas abertas - um busto, um flanco, um vaso. Antes, reabertas as coisas, atrás de ti, atrás da vida, que é perto de onde as coisas, que é perto de ti, sobre as tuas costas. Raspagem dos pêlos de um polvo. Suor que escorre de ti em direção à vida. Antes, que na dança de ilhargas, rejuntadas as postas, se falou num tempo - tempo de coisas reatadas. Mixagem dos ombros de um potro. Argamassa, coragem, partição da vida - e vesículas de onde brota a estação - a invenção das coisas. Sobre mim mesmo, teus dentes cravados, raiz das coisas retraçadas - um duto, um aqueduto, um túnel.

Sobre a Beleza.


Eu vi a beleza. Digo, porque presenciei. A beleza é pequena, tem olhos negros, a voz modulada. Não diria, se fosse uma coisa qualquer. Era a beleza inteira, encarnada. Eu estava presente quando a beleza se manifestou. Sinto-me privilegiado. Era o justo momento. Não pude tocá-la, mas esquadrinhei-a com meus olhos. Era imaculada. Eu pude saber – a beleza é pequena, grave, quase acanhada em seu exaustivo labor. Revelo: era um ele. Mas podia ser um ela, podia ser um ele-ela. Mas era um ele, e tinha partes, tinha os ornamentos, tinha os braços. Que foi nos braços da beleza (nos braços dele) que eu fiz a pesquisa de campo. Eram brancos, digo, com a veias azuis transparescentes. A beleza tem carne – eu percebi – a beleza é feita em osso e carnadura. Eu não o toquei, eu nem ao menos quero tocá-lo. Eu preciso somente entender – qual a natureza daquela forma? De que profunda fossa, de que oceanos, de que eras, de que jornadas vieste, ó pequeno, ó friável estrutura de músculos, ó singelo objeto existente? Jamais saberei, e estou feliz com isso. Porque desisti da intenção de pesquisar. Decidi que a beleza é inpesquisável. Quero apenas celebrar, quero apenas o júbilo de sabê-lo vivo, a alegria de retê-lo na lembrança, quero viver porque também ele, pequeno animal, vive e respira.  Estou satisfeito e seguro porque agora sei que a beleza existe. E se a beleza existe, é porque nada, absolutamente, foi em vão. De repente, o mundo faz sentido, tudo é claro, existe uma nota alta, uma alta música, um alto espírito. E ele, tão cego à força que nele labuta, tão ausente de si mesmo, dorme na cama mais ordinária da cidade. Será a beleza sempre assim, ausente, inconsciente de si mesma? Não vou mais perguntar. Eu cedo, enfim, à tua força. Eu apenas reabro em mim o espaço onde possas tu, pequeno cervo, estar aninhado. Eu capitulo e esqueço que a existência da beleza me inquieta. Pois assim, desnudo, vou a ti, sem dúvidas, os olhos puros, a face desanuviada. Vou a ti, inocente, como quem vai ao mundo.